Não caia na bobagem – tutorial de como não contar para os pais.

Pequena amiga sapatã, se você não passou por isso (ainda) pode ir se preparando. Ninguém consegue viver na sombra por toda a eternidade, bom, pode ser que até consiga sim, mas quem aguenta? Há dias que dá vontade de abrir a janela e gritar pra geral algumas verdades, mas não é bem assim que se deve resolver as coisas também.

Resolvi por fazer esse post já que não é de hoje que venho recebendo emails pedindo ajuda ou dicas sobre o que fazer na hora de enfrentar a situação, abrir o peito e gritar que gosta de mulher sim e daí.  Bom, especialmente se você ainda mora com os pais e depende deles financeiramente a coisa pode vir a ficar bem feia. Por isso vamos com calma.

Primeiro de tudo, fim de ano é uma péssima hora pra fazer isso. Não se engane pensando que o espírito natalino e essa palhaçada toda de amor e união vai tocar o coração da tua mãe e pai queridos PORQUE NÃO VAI. Nem sei se existe uma “melhor época” pra sair do armário mas definitivamente não é essa. Força, segura as pontas mais uns dias pra não acabar com as comemorações da tua família e principalmente a tua viajem cá namorada no reveillon, continuem só amigas super íntimas e grudadas, ok?

Esse post não vai te passar a receita de bolo ou o caminho das pedras de “Como sair do armário em 12 passos”, o título mesmo já adianta do que se trata – como NÃO contar para os pais – alguns detalhes não precisam ser compartilhados, dependendo do calor do momento eles não vão entender ou sequer ouvir.

É preciso ter em mente que será um choque de realidade, tanto para os pais que receberão uma notícia ,digamos, inesperada e para você, que provavelmente não receberá a resposta que espera. Se você contar e for super aceita, por pais compreensivos que entendam logo de cara, agradeça porque isso é bem raro, mas acontece, entretanto. Mas na maioria das vezes a resposta pode ser negativa. Alguns pais choram muito, perguntam o que fizeram errado, outros surtam e te prendem em casa, outros vão apontar os culpados e o pior também pode acontecer, você pode ser bastante hostilizada dentro de casa.

É preciso ir com a cara e a coragem mesmo, não é pra ir armada e sim disposta a conversar e se explicar ou apenas deixar o tempo agir. Mas antes de tudo, é preciso se apresentar aos pais da maneira mais leve possível, e sabendo que o resultado pode ser bem diferente do que você planejou.  Dessa forma, estou inclinada a acreditar  que a única dica que eu posso realmente disponibilizar e que  talvez seja a única que realmente ajude nessas horas é : conte aos poucos.

Existem duas maneiras de se entrar em uma piscina gelada, quando é preciso entrar.  Você pode dar um mergulho profundo procurando se adaptar rapidamente à temperatura da água, ou pode ir entrando aos poucos, se acostumando à medida que vai avançando rumo ao fundo.  É preciso fazer um estudo de campo, avaliar o terreno e escolher uma das duas estratégias, e não se pode esquecer que existem vantagens e desvantagens nas duas escolhas.

Na primeira o choque é forte, pode ser dolorido, você pode tocar o fundo e quando emergir ainda poderá sentir frio e não é possível mais recuar, mas pelo  menos você acaba logo com isso, dá um certo alívio. Já a segunda opção é bem mais demorada, solicita mais disposição e o frio se prolongará até que o corpo se acostume com a temperatura, porém permite o recuo estratégico e não é preciso atingir o fundo de imediato.

Felizmente vivemos em uma sociedade bem mais tolerante e esclarecida, os gays estão nas novelas, estão no ambiente de trabalho dos teus pais, estão no condomínio onde você vive, estão agora inclusive na união civil reconhecida pela lei, estamos por toda parte. Por isso eu penso que entrar aos poucos na piscina talvez seja mais prudente do que o mergulho até o fundo. Você pode ir mostrando filmes, debatendo sobre a novela, mostrando uma coluna do jornal ou um livro, e principalmente passando a mensagem de que não é errado ser gay, não é ofensivo ou nocivo a tua saúde ou futuro.

Você ainda poderá casar, ter filhos, adotá-los, se realizar profissionalmente, ser respeitado enquanto pessoa, enfim, viver uma vida normal, não exatamente a que teus pais sonharam e idealizaram para você, mas uma tão digna quanto!

Por hora apenas digo que qualquer que seja a tua decisão, contar de uma vez ou aos poucos vá sabendo que não será fácil. Não existe um jeito fácil de fazer isso, respeite o tempo dos teus pais e cuide de você. Se for preciso procure um centro especializado de apoio, quando se compartilha um problema ele fica mais leve.

Boa sorte a todas!

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5 Respostas to “Não caia na bobagem – tutorial de como não contar para os pais.”

  1. Rafael Sandim Says:

    Ótimo texto, Babsi. Acho que muitas pessoas vão pensar duas vezes antes de sair do armário de uma vez. Toda decisão com mais tempo de pensamento tem mais chances de obter sucesso.

  2. laila castro (@lailacastro) Says:

    contei para os meus pais na páscoa e também desaconselho feriados.

  3. leandrodamasceno Says:

    Belo texto, Babs. Parabéns. Vc é foda!

  4. Érika Pretes Says:

    Muito bom! =)

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